23.5.17

persianas horizontais


controlar a luminosidade 
dos astros [seus pequenos incêndios]
o melhor campo de visão anti-
espionagem é ver ou não

toco suas pálpebras e observo
as pupilas dilatando, o corpo 
que se abre ao campo 
esvoaçante das cortinas. podem ser


também as franjas, os óculos e os penduricalhos


13.5.17

cadáver exquisito



A língua é só um detalhe. A língua
não é uma víscera. A língua é um músculo 
cuja ausência de ossos permite modular 
sons complexos que, por acaso, podem também
fazer cócegas no ar. 
Mesmo que eu me tornasse 
estrangeira, minha língua nunca seria estrangeira. 
A carne epiléptica
tem que nascer e nasce 
onde nasce.

Só depois da língua é que vem 
o coração, a dobra-
dinha, a moela, as entranhas 
do porco, do bode, do touro e da galinha
que não podem falar. Eu falo
porco, bode, touro e galinha. Eu falo, sim
ao porco, ao bode, ao touro e à galinha. Eu falo 
minha comida, meus amigos, mas é com as mãos 
que como, com as mãos que toco
aperto, espremo, abro, entro e não levo 
as mãos à boca que pergunta 
como não manchar o traje.

A comida sujava menos no tempo do rito?
Cólera. Pássaro negro. Civilizações inteiras. 
Cores e formas áureas. Flor de Lótus. 
Ervas, fungos e cipós. Luz que cega e morre.
Antares! É no erro que mora a diabólica
mãe da beleza, por isso é tão difícil 
morar na beleza de um penhasco. 

Todo gênio se considera uma fraude 
ou não. Toda fraude é genial. 
Chupo os ossos da dúvida. A hiena ri.
Jamais sentirei fome novamente.


7.4.17

__ kg.



Giovani, meu irmão 
uma vez me disse: uma quitinete 
é maior do que um livro. 

Vivo numa quitinete 
onde sigo organizando 
o mundo nos meus livros
com todos os seus ou meus 
defeitos gráficos erros 
de impressão e corte
dedicatórias com ou sem 
suspiros ainda presentes.

Decidir o que manter na prateleira 
é um périplo quando o título 
está esgotado ou superado 
e tudo está 

fora do lugar, então escolho 
o que colocar na caixa 
um procedimento
ora cirúrgico ora penal
e a cada ano o tempo oxida 
um pouco mais as páginas
do livro que foi 
e do livro que fica 

não me deixe: essa lembrança 
não está em nenhuma caixa 
craniana
ela habita o livro esquecido
e o que está fora 
não está mais dentro
tento não pensar nisso
mas ela está fora de si 
e a lembrança precisa ir
se ela está fora de si

então ela deve ir-
se despedindo
mas no caminho ela cai 
lenta e grave
lenço em riste
a carpideira
que resistia aos cortejos
agora parte cansada
num dirigível de sal.

9.9.16

feijão


o medo

é algo difuso quando
tudo está por um triz. nem sempre

entendemos o que embala
um balanço
uma gangorra
ou um barco


a menina tem medo

às vezes sim às vezes não
consegue fazer nada

nem vestir uma roupa limpa
e do avesso 
ou cuidar de uma planta
cultivada num chumaço de algodão

a boneca na boca
inanimada revela 
o primeiro limite do corpo 
noutro corpo incognoscível

(ele me ensina coisas duras)



10.5.16

assula studium


quebra-se a primeira taça da casa

ela ainda está ali
seu momento 
cindido
repousa no chão da sala
[silêncio de funeral]


eis a dança 
bruta dos vulcões

eis a dança
ignorante dos espaços


ei-la: coxa, ávida, um desastre
rompendo o que não se restaura 
se fazendo só de som e sendo
mais lâmina que a própria lâmina 
do objeto perdido
[agora brilham menos 
os olhos que os cacos]


pisar nos cacos; sentir 
o chão nos cacos; sentir 
o peso do próprio corpo aberto 
para autópsia:

- meu deus!

[está aberta
a temporada dos espantos
                        meu amor]


costurados na pele, os cacos
esquecem que já foram taça


26.3.16

cholla


los cactáceos son plantas suculentas 
que colorean los desiertos cuando 
en todas partes sobran desiertos

necesito escribírtelo

porque no puedo entrar en tu casa
pero la he visto allí 
desde el balcón
una maceta con la misma especie 
de flor de cactus 
que ahora cultivo en el jardín

[el mismo tono grisáceo
la belleza melancólica
los ojos de abismo]

no puedo entrar en tu casa 
regártela si necesitas 
de agua a veces apenas llueve 
pero cómo duele 
y alegra a la vez vigilar de soslayo 
el color de la corola 
imposible.

acabo de empezar una fiesta; la flor 
de mi cactus crece; bailamos; el jardín es puro 
azúcar y blues; ninguna gota 
de sangre en los dedos; nuestros trajes
siguen intactos; primavera oculta 
en los dientes; la savia
nutre en silencio; no herir
el tallo; no herir el tallo; sin embargo 

necesito escribírtelo 

porque tal vez no lo sepas tal vez 
ignores
tu propio perfume
[envidio la mujer que lo conozca]

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