9.9.16

feijão


o medo

é algo difuso quando
tudo está por um triz. nem sempre

entendemos o que embala
um balanço
uma gangorra
ou um barco


a menina tem medo.


às vezes, sim; às vezes, não
consegue fazer nada

nem vestir uma roupa limpa
e do avesso 
ou cuidar de uma planta
cultivada num chumaço de algodão

é quando aceita - ela - o limite
do corpo num corpo

incognoscível
[ele me ensina coisas duras]



10.5.16

assula studium


quebra-se a primeira taça da casa

ela ainda está ali
seu momento 
cindido
repousa no chão da sala
[silêncio de funeral]


eis a dança 
bruta dos vulcões

eis a dança
ignorante dos espaços


ei-la: coxa, ávida, um desastre
rompendo o que não se restaura 
se fazendo só de som e sendo
mais lâmina que a própria lâmina 
do objeto perdido
[agora brilham menos 
os olhos que os cacos]


pisar nos cacos; sentir 
o chão nos cacos; sentir 
o peso do próprio corpo aberto 
para autópsia:

- meu deus!

[está aberta
a temporada dos espantos
                        meu amor]


costurados na pele, os cacos
esquecem que já foram taça


26.3.16

cholla


los cactáceos son plantas suculentas 
que colorean los desiertos cuando 
en todas partes sobran desiertos

necesito escribírtelo

porque no puedo entrar en tu casa
pero la he visto allí 
desde el balcón
una maceta con la misma especie 
de flor de cactus 
que ahora cultivo en el jardín

[el mismo tono grisáceo
la belleza melancólica
los ojos de abismo]

no puedo entrar en tu casa 
regártela si necesitas 
de agua a veces apenas llueve 
pero cómo duele 
y alegra a la vez vigilar de soslayo 
el color de la corola 
imposible.

acabo de empezar una fiesta; la flor 
de mi cactus crece; bailamos; el jardín es puro 
azúcar y blues; ninguna gota 
de sangre en los dedos; nuestros trajes
siguen intactos; primavera oculta 
en los dientes; la savia
nutre en silencio; no herir
el tallo; no herir el tallo; sin embargo 

necesito escribírtelo 

porque tal vez no lo sepas tal vez 
ignores
tu propio perfume
[envidio la mujer que lo conozca]

12.6.15

amor fati


VII       estreito bilíngüe

entre naves e barcas navega,
nos nomes, oceano em terra

de duas línguas o marulho inaudito;
e é o corpo, sim, a traduzir corrente

fonia desatada de átimos e sílabas:
era o estreito, era o passo, o limiar

(ora um perguntaria a seco se era
para se tornar mar para o outro.)

Simone Homem de Mello, Terrenos Dísticos



quebro
portas e janelas

todos os vidros da sua casa
porque sou a dinamite e um destino

vejo as vísceras espraiadas
beijo a pólvora 

e o remorso: você 
está por toda parte 

colando os cacos 
cortando os dedos 

ferindo a boca com pregos 
interditando o caminho: você

não me deixa entrar
não me deixa entrar

mas eu já entrei 
e agora não há lugar 

mais estreito que o Atlântico
escute atentamente

a sintaxe do martelo 
o uivo ao fundo o choro das crianças 

é a última ceia e o banquete
é uma promessa: eu juro 

derreter as chaves 
atear fogo ao corpo 

e soprar 
minhas cinzas em seus cabelos

apenas para lembrá-lo 
que o tempo é justo  

quando é seu servo e quando sou 
a dinamite e um destino

10.4.15

orquestra para danças violentas


havia
muito tempo numa noite
[essa bandida essa bandida]
e um drama estilhaçado no meio-fio
between my dreams and the real things
enquanto olhávamos nossos sapatos
à cabeceira da pista

havia
nesse drama
uma cenografia íntima
um país estrangeiro
um sussurro rompendo a névoa
rasgando o quadro rasgando
nosso contorno liquefeito
[pequenas dádivas]

havia 
um deus sitiado nesse som

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